Estaremos perdidos ou a encontrar-nos?
Conheci a Janice no La Bodeguita em 2016 ou 2017. Recordo-me, isso sim, que foi antes de ter organizado a primeira edição do concurso nacional de poesia “Poetas para o Ano Novo”, do qual a Janice foi imediata entusiasta e, meses mais tarde, acabou por ser selecionada para publicação, em 2017, na antologia homónima que juntou um total de seis autores até então não publicados em Cabo Verde. O lançamento da antologia marcou a inauguração do Espaço Fernando Pessoa, um espaço dedicado à poesia e à linguagem poética, do qual a Janice foi frequentadora assídua, assim como continua a ser ativa nas atividades da Associação txon-poesia. Se chamei Janice à autora é porque, de facto, tenho tido a oportunidade de acompanhar o tempo compositor da sua escrita, construindo esta confiança.
A própria escreve sobre esta ideia de tempo compositor como se Darwin não soubesse que, na evolução da espécie, aqueles mais aptos para sobreviver não são aqueles que perdem tempo a queixar-se por não terem aquilo que não têm formação nem competência para ter e sim, aqueles que trabalham todos os dias, se adaptam às circunstâncias e superam as dificuldades da vida: vencem. O livro “Exolvuntur: a sinfonia da humanidade, em cinco movimentos” é uma vitória. A Janice é escritora, em primeiro lugar, porque já tem aqui a sua primeira publicação. Demorou quase uma década para ganhar a coragem de tirar os textos da gaveta, enviá-los ao concurso promovido pela Sociedade Cabo-verdiana de Autores e, por fim, ver esta obra ser distinguida no Grande Prémio Literário SOCA Magazine. Antes de tudo, é uma vitória sobre si mesma.
A passagem do tempo é notória, tanto que a autora refere que os textos foram escritos em diferentes momentos, o que confere à obra uma composição em forma de clabedotche. É o resultado de um arranjo construído a partir do conceito de exolvuntur. Se ficaram tão intrigados quanto eu, quando li este termo pela primeira vez, nada melhor do que mergulhar no livro. A poeta ou poetisa – como melhor aprouver – parece apelar a cada ciclo da natureza que une aquilo que acaba àquilo que começa. O que morre ao que vive. A sombra à luz. O nada ao tudo. E tudo é cíclico, tal como podemos ler no verso: “Mas eis que, chegando ao fim,/toquei o início.”. A aparente polarização vai-se despolarizando, abrindo-se à complexidade da realidade fora do delírio das redes sociais e da inteligência artificial. Realidade representada nas personagens que beiram a nossa contemporaneidade, a quem Janice dá corpo, sobretudo porque coloca, para cada uma, um texto cuja descrição é reforçada pela ilustração que o acompanha.
Vejamos a personagem do Presidente do Mundo, representado pela ilustração de um homem em cima do globo, cuja altura se eleva dos demais e está protegido por mais de uma dezena de agentes de segurança. Este homem está ao lado de uma bandeira e segura um manual na mão onde está escrito na capa: “Regras para viver no MEU Mundo!”. O visual reforça a descrição que a autora faz da personagem, em particular, nos versos: “Firmo-me na tua terra/Espeto-lhe a bandeira/Olho para o horizonte/Chamo mais dos meus”. Em contraponto, o CORO, seguindo a tradição antiga de chamar as consciências à razão ou diríamos, hoje, século XXI, ao bom senso, canta: “Nem sempre podemos ser luz/Mas se não fores luz sê espelho/Reflete e amplia a luz que te guia/Não permitas que a sombra te coma o dia”. A representação da multiplicidade da identidade está, também, patente na ilustração da capa.
Como vimos até aqui, a Janice expressa-se através da linguagem escrita e da imagem, o que se alinha como muita poesia contemporânea, que é multimodal, dada a influência crescente da cultura digital. A poetisa enceta a procura pela voz própria com os modos poéticos que tem à sua disposição e, se a imagem reforça o sentido do enquadramento, não há um género textual fixo. Pelo contrário, o ritmo em verso livre e de métrica indefinida privilegia aquilo que a Janice quer dizer e transmitir ao leitor. Apresenta argumentos direcionados para o contexto socio-político que lhe é contingente e com o qual tem intenção de dialogar. Cada página do livro torna-se, assim, uma antecipação que nos instiga a descobrir. Vai desde determinados poemas que têm uma linguagem condensada, por isso provocam o salto e a suspensão das metáforas para o plano metafísico, até às prosas poéticas que vão urdindo os fios que conduzem a leitura por novos sentidos.
A sonoridade performativa é constante nos poemas da obra, que se reflete na proximidade com que a Janice parece chegar ao nosso ouvido com uma mensagem que quer dizer baixinho como quando estamos na intimidade de uma presença amiga. Neste caso, a mensagem divide-se em cinco partes: Movimento Primeiro – Internum, Movimento Segundo – Externum, Movimento Terceiro – Amare, Movimento Quarto – Eroticismus e Movimento Quinto – Phoenix – O ciclo da Fénix. O amor, nas suas variadas formas de expressão, é a pedra de toque que nos devolve a quem somos. Começando no amor próprio para, só depois, dar passos para amar o outro, os outros. O corpo feminino que escreve o desejo também se encontra, logo à partida, na escrita de Vera Duarte. Contudo, gerações diferentes vivem em circunstâncias diferentes e, se a geração dos escritores que fundou a literatura cabo-verdiana teve na escrita um privilégio, a contemporaneidade força os jovens a escrever, senão enlouquecem.
A Janice da Graça está aqui com todo o mérito. Diferente de outra personagem do livro, a Maria-vai-com-as-outras, que se deixa ludibriar pela fama ou dinheiro, a Janice-não-vai-com-as-outras: as outras estão com a Janice, todas estão com a Janice, todos estamos com a Janice. Porque é nos outros que renascemos e é com os outros que nos voltamos a sentir humanos. Não é por acaso que a autora termina “Exolvuntur: a sinfonia da humanidade, em cinco movimentos” com o poema intitulado “O voo da fénix”, símbolo mitológico do ciclo de morte e renascimento. Não é por acaso que os dois últimos versos do livro são: “Assim, eis que vivi, então, duas vezes./Viverei sempre quantas mortes vier a morrer.”.
Morra a morte. Viva a vida.
5 de dezembro de 2025
Mindelo, Cabo Verde
