Paná paná paná paná paná
Um bando de borboletas em migração: é o que significa panapaná. Panapaná tem origem na cultura tupi, povo indígena da Amazónia. Também é provável que a usem para se referir ao som do bater das asas da borboleta em voo. O poeta contemporâneo brasileiro André Capilé diz que quando tudo o que vemos e ouvimos e cheiramos acabar, existiremos panapaná. Então, Vasco Martins passa, hoje, a existir panapaná. E da sua obra imensa, desde a música, em que é pioneiro inigualável, até à escrita, em que foi visionário, o Vasco foi mestre da arte poética. Da arte que eleva a consciência e as emoções: não de qualquer coisa que agita apenas para nos tentar distrair da importância da nossa vida.
Do próprio Vasco é o primeiro livro de ficção científica publicado em Cabo Verde, em 1993, intitulado “Tempos de Moral moral”. Aqui, o autor antecipa um futuro em que ser honesto é ser idiota, ser poeta é ser ingénuo, ser humanista é estar ultrapassado e a moral é desnecessária. Em que determinados seres humanos são chamados Poetas da Alma e cito: “eram pessoas diferentes que tinham um intenso brilho nos olhos e uma áurea de leveza (…) viviam isolados produzindo livros, filmes e recitando. A hipersensibilidade que possuíam era admirada mas pouco desejada. Ser Poeta da Alma era ficar confinado para sempre no círculo dos que procuram e ninguém se preocupava e nem queria estar à busca do belo e das Antigas Tradições”.
É pela procura do belo e das antigas tradições que nos encontramos hoje, aqui, para celebrar o livro “Panapaná” do Guilherme Gontijo Flores, publicado este ano no Brasil. Poeta (não-ingénuo), professor de Latim e investigador afro-luso-brasileiro há mais de uma década. Percorreu milhares de quilómetros do Brasil, mais concretamente Curitiba, para aterrar em Cabo Verde. Esta manhã, o Gontijo disse-me que iria estar muito ocupado até à hora desta apresentação, porque iria caminhar até à campa onde está enterrado João Manuel Varela com João Vário com Timóteo Tio Tiofe e com Geuzim Té Didial. E porque nós jamais nos esquecemos, Varela publicou livros que quase ficaram para o mistério.
Ao terminar de ler o livro “Panapaná”, senti um abraço esculpido por um artesão que não permite que reste nem a mais pequena lasca. A forma é aperfeiçoada com a maestria do equilibrista que recria ritmos e métricas da Grécia antiga no corpo em transe que canta o agora. Canta um cântico que se abandona para se tornar vida, contagiando o estado de graça. Como Poeta da Alma, o Flores sente que precisa de escrever e escreve. Não escreve para criar conteúdos: escreve com conteúdo, porque se trata de viver ou de morrer. Assim largou João Varela os seus livros para o mundo, assim largou Vasco Martins a sua obra para o mundo. E quem é o mundo, senão nós, que estamos a fazer com que nasçam na morte ao partilharmos a sua memória. Será, também isto, panapaná?
27 de novembro de 2025
Mindelo, Cabo Verde
