Pôr os olhos no caminho

E depois, nada.
O que significa que está por acontecer.
Há estórias por contar ainda e
cantos por cantar ainda.
Que uma palavra contada não pode ser
queimada e uma palavra cantada é
purificação das vozes
que a escrita testemunha.
Se digo que ontem entrei no carro
e fez verão, é porque ontem,
depois de abrir o carro, entrar,
sentar-me no banco do condutor, fez verão.
Lá fora, estava um vento gelado sob
um sol quente e, ao entrar no carro,
tive a impressão imediata e nítida de,
aos meus sentidos, o calor reconfortante
do carro, agora fechado ao exterior,
me fazer sentir verão.
Como quem vai apanhar batatas
às cinco da manhã, ano após ano,
se sente natural proprietário do terreno.

No fim do pensamento, desci pela falésia.
Descia o caminho coberto de poeira seca e
lá em baixo,
abismo.
Punha os olhos no caminho.
Não tirava os olhos do caminho.
Seria fatal, um deslize.
Lá em baixo,
preparava-se um trilho que levaria horas.
O coração, outrora assombrado por estradas,
agora beco.
Não há pecado quando se aprende.